Hoje a lua está como o sorriso do gato de Alice. Sim, Alice, aquela do livro. Sempre gostei desse livro, por mais non-sense que ele seja. Ou exatamente por isso mesmo que eu goste dele: pelos diálogos aparentemente sem sentido que o permeiam.
Desde que vi o desenho já não consigo mais olhar a lua nova sem automaticamente me lembrar do gato da Alice. Uma lua com um sorriso maroto, de quem esconde algo, de quem nos observa sempre, insistentemente e guarda um segredo. Ou pior: um sorriso de quem nos olha e pensa: “tão tolos.”
Não sei o que ela esconde nem o que esse sorriso significa, até porque sei que lua não pensa e essas metáforas clichês não servem de muita coisa quando a gente tenta se explicar. Sei apenas que contemplá-la hoje me deu uma sensação um pouco diferente do que ando acostumada a sentir, e que tentei cobrir com palavras, mas não obtive sucesso. Consegui apenas uma roupagem fria e maltrapilha envolvendo sentimentos tão infinitamente complexos.
Observar a lua, o céu, as estrelas me soou hoje como uma perda de tempo, mesmo sabendo que não o é. Olhar estrelas é, muitas vezes, apreciar o que já não mais existe, embora esteja lá, visível. Tal como memórias de um passado (bom ou ruim, não importa) que marcam e algumas vezes ferem e não saem mais de dentro daquilo que chamamos alma. E que insistem em nos assaltar nos momentos mais inoportunos, quando pensamos que já havíamos conseguido superar tudo aquilo que nos incomodou.
Olhar a lua hoje me fez pensar no que eu guardo dentro de mim. Eu, que sou repleta de cantos e vazios e espaços e frestas por onde se infiltram os mais absurdos sentimentos, pensamentos, sensações.
Talvez seja essa a razão de se ser tão difícil olhar para si
Mas não importa. O que realmente me interessa hoje é que a lua sorriu.
E sabendo ou não o que isso significa, sorrir nunca há de fazer mal.
