… Por enquanto era perigoso. Ajoelhou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava, e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade., faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.”
[Clarice Lispector]
15/11/2010
Não, não devia pedir mais vida….
Trilogia de Nova York
Nas três novelas que têm a cidade de Nova York como pano de fundo, acolhendo amorosa e misteriosamente casos policiais estranhos, com seus protagonistas fantasmagóricos vivendo no limite entre o real e a insanidade, Paul Auster joga frequentemente com as divisas entre a normalidade e a fantasia, entre a razão e a perda de identidade, entre o universo íntimo do indivíduo e o outro.
Nas três narrativas os protagonistas perdem os parâmetros de sua subjetividade e se projetam na de outrem. O escritor parece propor em cada mínima linha, um teste ao leitor, expondo situações que fazem com que uma pessoa saia de seu casulo existencial e se espelhe noutra, confundindo e fundindo identidades, num processo doloroso de metamorfose. E não apenas isso: demonstra ainda uma obsessão por experiências que levam a vida dos personagens ao avesso, dando guinadas agudas e irreversíveis. Essas transformações geralmente ocorrem aos poucos, dentro de uma rotina exasperante, como se tivessem sido articuladas minuciosamente pela fatalidade.
Nos seus textos, a trama não se esgota em si mesma, nos acontecimentos e soluções de um enigma, com suas variantes. A investigação dá início a um enredo que se desdobra numa outra situação, que está além do mero caso policial. Há um fundo psicológico forte regendo o desenrolar dos fatos. A cidade tem uma participação marcante na arquitetura da trama, dando o contraponto à busca de sentido em que se debatem as personagens. A cidade ora é um labirinto, como se a sombra de Dédalo pairasse sobre as mentes e o Minotauro fosse a encarnação de um pesadelo urbano; ora um teatro grotesco que mescla dramas sem transcendência, mundanamente trágicos. Quando os protagonistas se incumbem de perseguir alguém, envolvidos numa investigação corriqueira, acabam encontrando sua própria fragilidade. De perseguidores se tornam perseguidos. De pessoas, fantasmas.
[Elisa Pires]
13/11/2010
Afinidade
“A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. O mais independente. Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto em que foi interrompido. Afinidade é não haver tempo mediando a vida…”
[Artur da Távola]
d-.-b – ouvindo: Dantes Prayer
Pensando: no meu Coração,,,,
10/11/2010
Madrugada
Hoje o dia principiou-se às 3:44 da madrugada com uma mistura de cheiros que me deixaram mais melancólica que o de costume. Situações aparentemente comuns, minutos de espera – as pequenas incertezas que rondam o ser humano em todos os momentos – tomaram proporções agigantadas, de modo que tudo o que é absolutamente normal tomou, hoje, ares de agonia profunda.
Cheiros. Nunca meus sentidos estiveram tão apurados e meu coração tão apertado. Ossos virando espuma; uma urgência de “não-sei-o-quê”, mas que é; urgência latente, saudade pulsante daquilo que não faço ideia,,, mas é, significa, está. Mesmo sem ter materialidade, preenchendo os minutos, segundos, de maneira interminável. E assustadora.
A sensação de precisar, de ser carente, de não ser aquilo que se espera mistura-se ao pensamento de que tudo está na mais absoluta calma. Eu sei que tudo está. Não o sinto, entretanto. Acostumei-me às situações, aos telefonemas não recebidos, aos ônibus lotados, à solidão de passar. O ser humano tem a tendência de banalizar tudo depois de alguma tempo.
Mas hoje não. Hoje eu quero tudo, quero aquilo que não entendo, quero, quero, quero. As lembranças que surgem através dos aromas não são definidas, talvez nem sejam lembranças. Sejam espectros de um tempo impreciso, uma falta, uma ânsia um momento caótico e infinitamente belo simplesmente porque já passou.
Esse tempo que escorre por entre os dedos, fina areia de ampulheta, metáfora clichê que uso apenas por não saber descrever precisamente a brevidade do que se vai. Cheiros misturados, opacos, incompletos como tudo o mais ao redor. Sair da posição do óbvio, deslocar-se para a posição de observador dos próprios passos. Fazer isso por vontade própria é aceitável. Mas ser sujeitado a isso em plena madrugada e ter o resto do dia para ficar assim não é algo que possamos dizer agradável.
O ser humano se acostuma a tudo. Existem coisas mais importantes que eu mesmo. E nada tende a ser do jeito que pintamos, pra menos ou mais. O sentimento passa, dilui-se, evapora.
E tudo continua, simples e calmamente, no lugar.
09/11/2010
Pequena Abelha
Comprei um livro pela capa. Sim, confesso: o ditado nunca fez muito sentido para mim se aplicado no sentido literal. A menina negra na capa laranja e o nome “Pequena Abelha” chamaram minha atenção num busdoor a primeira vez que os vi. Achei o título singelo, uma obra delicada da tradução. Comprei-o, enfim. Terminei de lê-lo em três dias e cada pausa era como se eu as fizesse calar num silêncio que já não podia continuar sendo.
Passei a escutar a voz de Abelhinha. Passei a distingui-la da voz de Sarah. A história das duas mulheres uniu-se e separou-se para depois as das encontrarem-se novamente. Mas dessa vez, o encontro foi meu. Não consegui interromper a leitura. Era como se ela mesma estivesse na minha frente, com os olhos fechados, balançando na cadeira, esperando tanto tempo para contar sobre aquele dia. Finalmente havia chegado a hora, hora que também eu esperava, por ter se tornado tão real. Então, prossegui. E meus olhos corriam cada palavra, unindo-as melancolicamente,,, já dizia Quintana que melancolia é uma tristeza bonita.
Talvez seja isso mesmo.
Ler aquelas palavras, ouvir a história da personagem que não queria calar me encheu de melancolia. Senti-me impotente diante de tantas revelações, por mais fictícias que fossem. Talvez porque tenha percebido que em algum lugar distante uma voz gritava e não era ouvida. A cidade era barulhenta demais para isso.
Aprendi que livros têm o poder de transformar nossas vidas se nos deixarmos envolver por aquilo que lemos. Eu me deixei envolver. Abelhinha diz que é perigoso quando uma moça se apossa da história de outra. Mas já não consigo separar a história dela da minha. Em comum não temos nada: ela fictícia, eu – real. Ela lutadora, silenciosa, forte. Eu – ? Mas de alguma maneira ela passou a existir dentro de mim, cada página que eu avançava do livro.
Exagerada, você pode dizer. Elisa, você é uma exagerada. Posso ser. Sempre soube que sentia mais do que podia explicar, sempre fui bastante simbolista nesse sentido. Mas durante os três dias de leitura era como se eu estivesse ouvindo um depoimento.
Via os rostos que ela descrevia, sentia no peito o que ela contava. Ouvi os gritos que ela ouvira. O fatídico dia em que se conheceram, a decisão que tomaram. Coloquei-me também naquela praia, levei eu também a situação ao extremo.
E terminei o livro me sentindo incompleta, exatamente por me sentir tão pequena diante do tanto que o mundo comporta.
14/10/2010
Difícil falar do tema aborto sem tomar posição. Eu sou contra. Mas não fiquemos só no campo individual, do foro íntimo. Eu não só sou contrário – ao aborto e à sua banalização – como considero uma das grandes contradições da esquerda contemporânea. A cada vez que eu vejo os argumentos dos “pró-escolha” não consigo deixar de identificar uma linha de defesa do direito à propriedade – no caso, o corpo da mulher como uma propriedade que lhe daria o direito de decidir. “Tirar” ou “não tirar”, como dizem por aí – como se fosse um cisco que ali estivesse.
Do outro lado, quem se alinha entre os “pró-vida” é atacado nos círculos de esquerda como o último dos conservadores. Uma vez uma amiga me falou indignada sobre o professor Carlos Alberto di Franco, articulista do Estadão, desqualificando-o não por suas posições políticas conservadoras, mas especificamente “porque ele critica o aborto”. Depois ela olhou para mim por instantes e provavelmente se lembrou que eu também sou contra. E que talvez eu (um jornalista apaixonado por direitos humanos) estivesse longe de ser um defensor do que há de mais reacionário neste país.
Desta forma, temos um samba do crioulo doido. As pessoas de esquerda, acostumadas a pensar na sociedade em função do outro, da coletividade, tomam posição ferrenha “pró-escolha”, pró-indivíduo. E de um jeito que eu não poderia classificar de tolerante – como mostra a suspensão dos deputados petistas. Do outro lado, quem costuma se alinhar com a direita, tradicionalmente defendendo os direitos de proprietários em relação aos de trabalhadores, sem-terra etc, invoca para si, no caso do aborto, a defesa “da vida”.
Essa discussão tem vários matizes. No campo da religião, da filosofia, da política, da saúde pública. Mas que bom seria se todos defendessem a vida, em quaisquer circunstâncias.
[Alceu Castilho]
24/06/2010
Estações
Sou feita de estações. A cada dia que passa, minha alma se encaixa em uma delas. Existem dias de verão, onde minha alma se enche de sol e o calor que exalo pelos meu poros faz meu coração suar. Existem dias de primavera, nos quais por onde passo, deixo um rastro de pétalas, o perfume das flores, o romantismo de um olhar carinhoso. Há ainda os dias de outono, onde me dispo do passado e deixo cair de mim tudo aquilo que não é mais meu, para que eu fique frondosa e cheia de frutos, com gosto doce e cítrico, que só eu tenho. Mas eu tenho também meus dias de inverno. Nesses dias não tenho proteção, fico retorcida, amarga, feia, solitária, nada me aquece. Nesses dias, repenso tudo aquilo que já vivi e, principalmente, o que estou vivendo. Nesses dias, entro em crise. Vejo que não sou mais ou melhor que ninguém, que sou uma confusão de gostos, cheiros, sentimentos,,, que não sei o que sinto e por quem sinto. Que misturo melodias, cores, amores, pessoas… que troco nomes. Que meu coração não me pertence e que não sei nem metade do que ele esconde. Me surpreendo com o que eu realmente sou. Fico vulnerável e muitas vezes, impulsiva. Falo o que não devo, na hora errada, para quem não deveria ouvir.
Mas mesmo assim, é dessa forma eu passo a me conhecer mais. Percebo o quanto quem eu sou ou o que eu sinto são coisas ínfimas perto da grandeza de tantas outras árvores do mundo. E então, aprofundo minhas raízes, sacudo minhas folhas, me esforço para me mexer. E é assim que, sem perceber, lanço minhas sementes, fazendo-as cair em terra,,, dessa forma elas darão frutos. Já dizia Cecília que é por desfolhar-me que não tenho fim. Algumas vezes é preciso que se perca um pouco de si para recuperar o que é, realmente, de extrema valia.
[Elisa Pires]
23/06/2010
De vermes e outros animais rastejantes – O livro de Mauro Siqueira
Quando me foi pedido que fizesse a apresentação de “De vermes e outros animais rastejantes”, confesso ter me sentido incapaz de fazê-lo. Os sentimentos que tal livro despertou nos leitores, ainda que estes tenham sido nossos colegas, estudantes de graduação ainda em processo de alfabetização literária, não podem ser resumidos e explicados em uma ou duas laudas.
Lembro-me claramente do primeiro conto que Mauro mostrou-nos (“Dilema ou 47 Segundos”), no corredor da faculdade e da reação que tivemos ao terminar de lê-lo. O conto corria de mão em mão e os rostos iam transfigurando-se conforme a leitura avançava. Foi interessante ver a reação de cada um e a maneira como o que lemos nos afetou tão profundamente. A leitura fazia não só nossas mentes mas também nossos corpos, trabalharem.
Contos viscerais, densos, por vezes pesados, com certa dose de lirismo incomum, que nos submergem em uma leitura profunda, sinergética como todo livro deveria fazer. Mauro soube criar com destreza personagens que nos prendem em situações por vezes inusitadas. A maneira com que escreve nos faz perder o fôlego, tudo é muito rápido, os diálogos entrecortados por pensamentos, as falas entrecortadas pelas ações, os leitores entrecortados pela narrativa.
Certa vez, Roland Barthes perguntou se nunca havia acontecido, ao ler um livro, “irromper com freqüência a leitura, não por desinteresse, mas ao contrário, por afluxo de idéias, excitações, associações. Numa palavra, nunca lhe aconteceu ler levantando a cabeça?” E é nessa leitura, irrespeitosa ”porque corta o texto” e apaixonada “porque dele se nutre” que eu lhe convido a mergulhar. O livro de estréia de Mauro Vinícius é muito mais que um simples livro. É a reestréia de nós como leitores de literatura brasileira. A inauguração de sentimentos até pouco tempo desconhecidos, adormecidos, intocados em nossa vil natureza humana. É, talvez, a nossa estréia como seres racionais…
,,,, ou, quem sabe, como vermes e outros animais interiormente rastejantes.
Leiam o livro. Vale muito a pena.
27/05/2010
Sentimentos
Desilusão
é quando anoitece em você contra a vontade do dia.
Culpa
é quando você cisma que podia ter feito diferente,mas, geralmente, não podia.
Perdão
é quando o Natal acontece em outra ápoca do ano.
Desculpa
é uma frase que pretende ser um beijo.
Excitação é quando os beijos estão desatinados
pra sair de sua boca depressa.
Desatino
é um desataque de prudência.
Prudência
é um buraco de fechadura na porta do tempo.
Lucidez
é um acesso de loucura ao contrário.
Razão
é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.
Emoção
é um tango que ainda não foi feito.
Ainda
é quando a vontade está no meio do caminho.
Vontade
é um desejo que cisma que você é a casa dele.
Desejo
é uma boca com sede.
Paixão
é quando apesar da palavra “perigo” o desejo chega e entra.
Amor é
quando a paixão não tem
outro compromisso marcado. Não.
Amor
é um exagero… também não.
É um “desadoro”…
Uma
batelada?
Um exame,
um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero,
um despropósito,
um descontrole, uma necessidade, um desapego?
Talvez, porque não tivesse sentido, talvez porque
não houvesse explicação
esse negócio de amor não
sei explicar..
[Adriana Falcão]
17/05/2010
Mídia e igreja
O que houve com o Padre Silvio Andrei reflete como a sociedade se comporta quando o assunto é igreja católica: um sensacionalismo medonho e por muitas vezes irracional, que normalmente julga injustamente pessoas que não deveriam ser julgadas.
É evidente que, não é por ser padre que seus erros devem ser encobertos. Mas também não é por ser padre que esse erro é comum, como muitos falam: “ah, tinha que ser padre mesmo”. Entendam: para muitos desinformados ou mal intencionados, igreja virou sinônimo de erro, e nós bem sabemos que não é desse jeito.
Padre Silvio Andrei estava com mãos e pés algemados, jogado dentro da cela. Nem mesmo presos de alta periculosidade são tratados dessa maneira. E isso não é nem cristianismo: são direitos humanos mesmo. Por que humilhá-lo dessa maneira? Por que ele é padre? Denegrindo a imagem do padre, denigre-se também a imagem da igreja.
A mídia fere muitos limites éticos e pouco se fala sobre isso. O problema do padre foi ter misturado antidepressivos com vinho. Ele errou ao dirigir alcoolizado, como tantos outros erram e passam despercebidos.
Não estou justificando um erro apontando outros, isso não é argumentar, é sofismar. Estou apenas mostrando que, quando se trata da Igreja Católica os erros parecem indefensáveis e não é assim.
O padre precisa sim, ser julgado. Mas dentro dos limites de um julgamento racional. Se nos dizemos cristão, ajamos como cristãos. A verdade sempre vem à tona. Afinal, o tempo é o que existe de melhor para que o ser humano seja colocado em seu lugar.
